2 de fevereiro de 1970. Um milharal coberto de neve perto de Big Sandy, Montana. Um F-106A Delta Dart está sozinho, com os motores ainda funcionando e o nariz enterrado na neve. Sem piloto. Sem danos. Apenas um pouso incrivelmente fortuito que desafia todas as probabilidades.
Esta é a história verídica do Capitão Gary Foust, do 71º Esquadrão de Caças Interceptadores, e de um dos momentos mais marcantes da história da aviação militar: quando um caça não tripulado pousou sozinho.
Durante décadas, o F-106 foi a espinha dorsal da defesa aérea continental dos Estados Unidos. Rápido, preciso e implacável em combates aéreos, o Delta Dart foi projetado para interceptar bombardeiros soviéticos antes que pudessem ameaçar cidades americanas. Mas naquela manhã de inverno, um F-106 realizaria algo que seus projetistas jamais imaginaram: uma recuperação perfeita de um parafuso, uma descida controlada e um pouso de barriga impecável — tudo isso sem piloto nos controles.
Informações rápidas
- Aeronave: Convair F-106A Delta Dart, série 58-0787
- Data: 2 de fevereiro de 1970
- Piloto: Capitão Gary Foust (71º Esquadrão de Caça Interceptador)
- Localização: Big Sandy, Montana
- Altitude de ejeção: ~15.000 pés
- Pousar: Pouso de barriga em milharal coberto de neve
- Resultado: Aeronave recuperada, reparada e que voou até 1986.
- Hoje: Museu Nacional da Força Aérea dos Estados Unidos
A Preparação: Um Exercício de Treinamento de Rotina
Era para ser um voo de treinamento padrão. O Capitão Gary Foust, um experiente piloto de caça do 71º Esquadrão de Caça Interceptador, estacionado na Base Aérea de Malmstrom, em Montana, estava realizando um exercício de treinamento em uma fria manhã de fevereiro. O F-106A que ele pilotava — número de série 58-0787 — era um dos caças mais avançados do arsenal da Força Aérea, um interceptador Mach 2+ projetado para subir, virar e combater em altitudes onde a maioria dos pilotos mal conseguia respirar.
O exercício foi intenso: subidas íngremes, curvas em mergulho e manobras de alta força G, projetadas para testar tanto o piloto quanto a aeronave no limite de seus limites. Não se tratava de voos de treinamento cautelosos — era o exercício real, o tipo de voo que exigia foco absoluto e técnica perfeita.
Então algo deu errado. A causa exata se perdeu na história, mas o que importa é o resultado: o F-106 entrou em parafuso plano.
Giro Plano: O Desafio Supremo
Um parafuso plano é o pesadelo de qualquer piloto de caça. Ao contrário de um parafuso convencional, onde o nariz da aeronave baixa e há algum fluxo de ar frontal, um parafuso plano é uma perda de controle do voo, onde a aeronave gira quase horizontalmente, em torno de seu eixo vertical, com movimento frontal mínimo. Os procedimentos de recuperação não funcionam. As asas perdem sustentação. As superfícies de controle encontram ar estagnado. E a cada segundo que passa, a gravidade puxa a aeronave para baixo.
Foust tentou de tudo. Acionou os controles de recuperação, lutou com o manche, queimou combustível em uma subida desesperada para ganhar velocidade e retomar o controle da aeronave. Nada funcionou. O F-106 permaneceu preso em parafuso plano, descendo, girando, incontrolável.
No momento em que decidiu ejetar, ele estava a aproximadamente 15.000 pés — uma altitude tão baixa que não haveria tempo para uma segunda chance. Ele ejetou.
A Recuperação Impossível
É aqui que a história se torna extraordinária.
Quando Foust se ejetou, a enorme aceleração do assento ejetor o puxou para cima e para trás com uma força tremenda. Seu corpo, subitamente removido da aeronave, provocou uma mudança no centro de gravidade. Naquela fração de segundo, o F-106 — ainda girando em seu parafuso mortal — passou a ter uma distribuição de peso completamente diferente. Com a ausência do piloto e do assento ejetor, o equilíbrio da aeronave mudou fundamentalmente.
Ninguém planejou isso. Nenhum engenheiro havia projetado algo assim. Mas a física é indiferente às expectativas: a mudança no centro de gravidade foi suficiente para alterar a dinâmica de rotação. O F-106, inacreditavelmente, começou a se recuperar.
O nariz da aeronave foi gradualmente baixando em direção a uma atitude mais convencional. As asas começaram a gerar sustentação novamente. A rotação diminuiu. E, à medida que a altitude continuava a se dissipar, o Delta Dart passou de um parafuso plano para uma descida. Não uma descida controlada — a aeronave ainda não era tripulada, ainda estava em trajetória balística, ainda caindo pelo céu de Montana — mas uma descida com ordem aerodinâmica em vez de um giro caótico.

O Pouso: Um Milagre Coberto de Neve
Sem piloto e sem potência para manobrar, o F-106 desceu em um suave planeio em direção à paisagem branca abaixo. As asas ainda forneciam sustentação. A aeronave estava em uma atitude controlável. E logo abaixo, um milharal coberto de neve se estendia como uma vasta e generosa pista de pouso.
O pouso de barriga foi suave. A aeronave assentou na neve, o atrito diminuindo sua velocidade, e finalmente parou com os motores ainda funcionando. Um fazendeiro que estava por perto ouviu o barulho e a encontrou. Os danos foram mínimos. A aeronave estava intacta, reparável e, ainda mais incrível, operacional.
O capitão Gary Foust aterrissou em segurança de paraquedas a quilômetros de distância, ficando completamente chocado ao saber mais tarde que sua aeronave havia feito algo que nenhuma aeronave deveria ser capaz de fazer: pousar sozinha.
Depois do Impossível
A Força Aérea recuperou o F-106A, avaliou os danos e o reparou. A aeronave retornou ao serviço e voou por mais 16 anos, até 1986. Eventualmente, foi aposentada e doada ao Museu Nacional da Força Aérea dos Estados Unidos, na Base Aérea de Wright-Patterson, perto de Dayton, Ohio, onde permanece até hoje como um testemunho tanto da incrível engenharia do Delta Dart quanto da pura sorte que às vezes muda a história.
A história do Bombardeiro do Campo de Milho permanece como uma das maiores impossibilidades da aviação — um lembrete de que, às vezes, os momentos mais extraordinários não vêm de ações heroicas, mas do alinhamento preciso da física, do tempo e do acaso.
Fontes: Arquivos Históricos da Força Aérea dos EUA, Museu Nacional da Força Aérea dos Estados Unidos, “Máquinas com Asas”, Revista de História da Aviação